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João Figueiredo

I AM A MISTERY TO MYSELF

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Nesta obra, a figura apresentada parece emergir — ou talvez escapar — de uma estrutura geométrica que remete a uma caixa aberta, uma espécie de caixa de Pandora que expõe mais do que deveria e, simultaneamente, oculta o essencial. O rosto, composto por dois perfis sobrepostos, produz uma identidade instável e deliberadamente ambígua. A fusão entre características masculinas e femininas reforça uma leitura de sexualidade duvidosa, não como incerteza, mas como multiplicidade: o género não é fixo, mas um campo aberto, dobrado sobre si mesmo.

As linhas pontilhadas e arabescos que envolvem a figura funcionam como teias visuais, uma malha que interfere na leitura direta do corpo e da personalidade. Esse “ruído gráfico” torna a personagem mais difícil de decifrar, como se cada camada adicionada servisse tanto para revelar quanto para esconder. As teias não aprisionam; confundem. Criam distância. Desestabilizam o olhar.

A caixa, sugerida pelas linhas retas que moldam parte do corpo, transforma-se numa metáfora para o espaço psicológico:

— um interior que se abre, um segredo que se arrisca a sair, uma identidade em processo de

revelação.

O traje barroco — com rendas exageradas, ombreiras douradas, gestos elegantes — funciona

como uma máscara social, um papel teatral. No entanto, o rosto dividido e a fragmentação subtil do corpo expõem fissuras nesse desempenho, como se a personagem estivesse presa entre aquilo que é, aquilo que mostra e aquilo que teme revelar.

Quem está aqui?

A obra não responde. A figura é uma construção híbrida, um ser entre géneros, entre épocas,

entre versões de si. É alguém que apenas se deixa ver parcialmente, obrigando o observador a completar aquilo que falta — e, assim, revelando mais sobre nós do que sobre a própria personagem. pareceu me indicado que esta obra recebesse o nome de I am a mistery to myself

“I AM A MISTERY TO MYSELF”

Técnica mista sobre alumínio

100x70 cm

00:00 / 02:22
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